Edição 12 - 2017

Modelo de escola atual parou no século 17

Modelo de escola atual parou no século 17

Professores não são educadores
 
A inadequação do atual modelo de educação no Brasil e a desconsideração das diferentes culturas nos processos de ensino e aprendizagem foram temas que também marcaram a 12ª edição do Diálogos DC, realizado na sede do DIÁRIO DO COMÉRCIO, na última semana. Os especialistas comentaram que, apesar do grande avanço tecnológico e do volume cada vez maior de produção de conhecimento no mundo, a educação ainda aparece como um campo pouco tocado pela inovação e cheio de desafios estruturais que precisam ser resolvidos.
 
Entre os convidados para o debate, o antropólogo e educador Tião Rocha foi o que mais levantou bandeira sobre o assunto. Depois de décadas atuando como professor dos mais diferentes níveis de formação, ele acumulou experiências que o tornou um verdadeiro inconformado com o método tradicional de ensino no Brasil. Para Tião Rocha, a educação brasileira carece mais de educadores do que professores. “Me disseram que isso era bobagem e que era tudo a mesma coisa. Mas não é. Existe uma grande diferença: o professor ensina e o educador aprende. Educação é algo que acontece no plural: é necessário o eu e o outro”, disse.
 
O educador contou que teve esse insight, ou “clarão” – como ele mesmo traduziu para o mineirês – quando ainda era professor na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Ele disse que tentou espalhar esse conceito de educador, mas se percebeu pregando no deserto. O jeito foi mesmo pedir exoneração do cargo – para o espanto de seus colegas – e começar uma nova carreira como educador popular.
 
“Criei o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento em Belo Horizonte porque eu queria aprender”, disse. O educador desenvolveu projetos que se tornaram referência no País e originaram a pedagogia de roda, que privilegia o diálogo e não a exclusão e que promove a educação fora dos padrões da sala de aula em lugares como a grama debaixo do pé de manga.
 
“Educação é um fim, escola é um meio. O meio está a serviço dos fins e se não funcionar fecha, mas a educação tem que prevalecer. Esse sistema que está aí não responde à demanda real. Tem que mudar radicalmente, quebrar parede, acabar com aula de 50 minutos, acabar com 18 matérias que não servem para nada”, defendeu.
 
Referência – Tião Rocha ainda citou o exemplo da Finlândia, referência em educação no mundo. Para ele, o principal segredo do sistema educacional finlandês é a criação de uma escola em prol do aluno. “A criança tem que aprender no seu tempo e no seu ritmo, senão a escola vira um serviço militar obrigatório para meninos de sete anos. A escola não pode se assemelhar a uma cadeia, a um quartel, a uma fábrica e muito menos a um hospício. Tem que se assemelhar a um parque de diversão. A criança tem que aprender brincando, o processo de aprendizagem tem que ser bom, generoso e fértil”, destacou.
 
O diretor administrativo da Cooperativa Cultura, Educação e Turismo, Ricardo Santos, também compôs a mesa do debate e concordou com Tião Rocha sobre a inadequação do modelo tradicional da educação no Brasil. Para ele, embora a tecnologia tenha avançado tanto nos últimos anos, ela parece não atingir a educação, que permanece com os mesmos padrões de séculos atrás.
 
“Se você colocar uma pessoa que viveu há 200 anos em um hospital dos dias atuais ela vai ficar deslumbrada e não vai saber onde está. Mas se colocá-la em uma sala de aula ela vai identificar na hora porque continua igual. O que fazemos hoje é ensinar pessoas do século 21 com professores do século 20 e com metodologias do século 17”, analisou.
 
Santos também estendeu a crítica à academia. Ele destacou que o ambiente da pesquisa científica ainda é muito reservado a alguns “eleitos”, que se dedicam a uma produção muito fechada, onde um cita o outro em suas teses sempre iguais. Em sua própria tese de mestrado, que tratou da geo-história do Vale do São Francisco, ele fez essa crítica perguntando por que o conhecimento popular, como o dos ribeirinhos que ele entrevistou, é tantas vezes desconsiderado. Santos falou sobre a riqueza da percepção de cultura dessas pessoas e lamentou que isso seja considerado inferior por não se tratar de conhecimento científico.
 

“Por que não posso colocar o conhecimento do ribeirinho como conhecimento legítimo? Só porque ele não tem um item publicado nos padrões da academia? A maneira como essa cultura se perpetua na prática é diferente do que estamos acostumados e, muitas vezes, isso não é valorizado pela academia. Precisamos discutir o que a academia tem que trazer para esse ambiente cultural”, disse. Santos disse que, durante a sua apresentação, um dos professores da banca perguntou o que ele estava fazendo ali se criticava tanto a academia. A resposta veio rápida e certeira: “Porque até para criticar a academia você tem que estar na academia, senão não tem credibilidade”.