Edição 6

Identidade dos mineiros vai muito além das montanhas que cercam o Estado

Identidade dos mineiros vai muito além das montanhas que cercam o Estado

6ª edição do Diálogos DC discutiu o papel e o lugar de Minas Gerais no cenário nacional 
 
Não há mais lugar para a imagem caricata do mineiro com chapéu e um cigarrinho de palha. No coração do Brasil, há um povo que vive, sim, entre as montanhas, mas que produz cultura, tecnologia e modos de vida que vão além delas.
 
A reflexão é fruto da sexta edição do Diálogos DC, evento promovido pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO em parceria com a ArcelorMittal, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e Banco Mercantil do Brasil.O encontro, realizado no último dia 19, na sede do jornal, discutiu o tema “Cidadania e Identidade – o papel e o lugar de Minas Gerais”.
 
A iniciativa propõe uma série de debates norteados pelo documento “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, editado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000. O último encontro foi inspirado no objetivo 3: “Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades”. O debate contou com a presença de representantes de diversas entidades mineiras, que expuseram sua visão de identidade e cidadania, trazendo diversidade para o debate.
 
Os palestrantes foram o presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves; a presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha), Michele Arroyo e o gestor do Memorial Minas Gerais Vale, Wagner Tameirão.  O diretor do Instituto Orior, Raimundo Soares, mediou a discussão.
 
Michele Arroyo iniciou o debate lembrando que o conceito de identidade “não está pronto”, pelo contrário, assim como o conceito de patrimônio, ele muda o tempo todo, se construindo e se desconstruindo. Dessa maneira, ela destacou que não é possível dizer qual a identidade mineira em algumas poucas palavras. Essa seria uma missão impossível, considerando a pluralidade do Estado e as realidades de vida e visões de mundo tão distintas mesmo em municípios vizinhos. “Identidade é dinâmica plural. Longe da ideia de linearidade, a identidade, a memória e o patrimônio são cíclicos. Eles se ressignificam a partir das novas realidades e com o surgimento de novos coletivos”, disse.
 
E é justamente por essa dinamicidade do conceito de identidade que Michele Arroyo destacou que a velha ideia de que o mineiro é conservador e de que está preso entre as montanhas é ultrapassada. Para ela, essa é uma identidade construída pela elite com o objetivo de perpetuar valores de seus interesses. Mas ela destaca que não é assim que a maioria dos mineiros vive nem tampouco se enxerga. “A gente traz a cultura dinâmica para uma caixinha e fala: ‘Isso é a tradição de Minas Gerais’ ou ‘Essa é a forma de fazer pão de queijo’. Muitas vezes adotamos essas falas porque são nosso lugar de conforto e esquecemos que a dimensão é maior, mais dinâmica e requer uma escuta muito mais atenta”, alertou.
 
Paradigmas – Wagner Tameirão também compartilhou de uma visão descolada da folclórica ideia do mineiro “que come quieto”. Ele lembrou que o Estado já nasceu urbano em torno da exploração dos sonhos do ouro e do diamante.
 
“Em Minas se desenvolveram primeiro as cidades, como Ouro Preto e Diamantina, e depois as fazendas, que cresceram ao redor para abastecer esses municípios”, frisou. 
O gestor do Memorial Minas Gerais Vale afirmou que Minas Gerais está construindo sua identidade como um dos estados com maior diversidade cultural do País, destacando o surgimento de novos artistas e de polos de tecnologia que são referências nacionais.
 
Tameirão também destacou o “potencial de acabamento” do mineiro, que é conhecido em outros estados por trabalhar bem e fazer as coisas bem-feitas. Mas ele criou o que chamou de excesso de modéstia do mineiro. “A gente não se valoriza como deveria e isso pode impactar nas nossas relações econômicas”, disse.
 
Para Lincoln Gonçalves, o mineiro tem características marcantes, como ser reservado, simples, ligado à família e desafeito a grandes batalhas. Mas ele admite que esse é um conceito em crise. “Essa é uma base que está em mutação: essa geração atual pode ser a última com essas características”, afirmou.
 
Thaíne Belissa